Terça-feira, Março 10, 2009

Hellen

O amor é algo tão único e paralelamente tão diverso, que não acredito haver uma forma correta de defini-lo. Da forma dramática de Shakespeare à espiritual do Apóstolo Paulo, creio que todos estejam certos. O amor se define a partir do coração do amante, penso.

Hoje, eu defino o amor a partir da alguém. Foi a Hellen quem despertou dentro de mim esse sentimento tão forte e único. O amor que tenho descoberto através dela é prazeroso, não sofredor; anima, aviva e motiva. O amor que tenho descoberto através da Hellen, e pela Hellen, toma proporções sentimentais que ainda não conhecia. E se apodera de mim de forma até então desconhecida e não imaginada.

Só se pode experimentar o amor através do outro, claro. Penso nele como uma casa que abrimos para uma pessoa estranha. Penso em nós, seres humanos carentes de relacionamentos, como uma casa que precisa ser habitada e visitada. Nesta casa, algumas pessoas têm mais liberdade que as outras. Bem como na nossa morada física alguns passam da sala para a cozinha, quartos e banheiros e outros se limitam apenas às áreas mais comuns, assim acontece com a nossa casa interior.

A Hellen entrou em minha casa, em mim, e ultrapassou as áreas comuns. Se atribuo a cada acomodação da casa um sentimento, diria que ela começou pela sala de visitas da educação, passando para a varanda da amizade, descansando na sala de estar do carinho e descobrindo o quarto do amor. Como a casa do coração é muito grande, ela ainda mereceu entrada e passou a viver pelos cômodos do respeito, da compreensão, da abnegação sadia, da felicidade, do bem-estar e do altruísmo. Ninguém, além de Deus, jamais havia explorado tanto esta casa.

Dei-lhe de coração aberto muitas chaves. Ela pode ir e vir. Entrar e sair o quanto e quando quiser. Já que também conquistou a chave da confiança, seus movimentos nunca geram insegurança.

Ninguém nunca caminhou tão graciosamente em cômodos tão simples...

Quarta-feira, Janeiro 28, 2009

Noctem

- Puxa! A lua está muito linda!

- É mesmo! Está cheia e brilhante! Quantas horas?

- São 17:20... estranho...

- Estranho mesmo! Já está tão escuro... parece que a noite resolveu chegar mais cedo.
- E então? Isso significa alguma coisa?

- Não sei...

- Quando a noite chega mais cedo a gente fica mais tempo no escuro?

- Não, com certeza não. Todas as noites duram o mesmo tempo. Quanto antes a noite chega, mais cedo a manhã chega também.

- Entendi... Legal! Tava com medo de ficar mais tempo no escuro; a noite me assusta um pouco.

- Não há por quê se preocupar. Vamos aproveitar a noite para descansarmos?

- Claro!

...

Quarta-feira, Dezembro 17, 2008

Justiça

Resolvi passar para o teclado hoje algumas idéias que constantemente me têm assombrado. Faço um texto que não teve nem rascunho. Escrevo direto aqui no blog. Desta vez, não vou me permitir negociar entre a sinceridade e a polidez, entre a espontaneidade e a pedagogia. Permitam-me um desabafo...


Onde foi parar a busca pela justiça? Será que ninguém mais vê com seriedade a ênfase que Jesus e os autores dos textos sagrados deram à prática da justiça? Não é cada indivíduo responsável pelo bem estar do outro e pela manutenção da harmonia no ambiente em que vive? Os cristãos não deveriam ser os primeiros a levantarem a bandeira da justiça?

A resposta sincera à essas perguntas certamente assustaria a muitos. Mas não pela perversidade ou apostasia de quem as poderia responder. Mas sim pela cegueira de quem as poderia responder! É certo que muitos lêem aquele parágrafo e concordam com o que está escrito. Porém, não se enxergam como cúmplices da injustiça no mundo, o que todos somos.

Queremos uma justa distribuição de renda. Mas se ganharmos um milhão, compraremos aquele carro ou aquele sítio. Não nos conformamos com a fome e com a miséria no mundo. Mas trabalhar toda a semana e se ocupar com os compromissos sociais e religiosos nos momentos de folga é suficiente para que nossas mãos se atem para a mudança deste quadro. Afinal, o que eu poderia fazer sozinho?

Somos todos hipócritas! Todos queremos que o carro mude a direção, mas ninguém está disposto a pegar no volante. Condenamos os milionários por ostentarem uma vida pomposa e ocuparem-se mais com a manutenção da sua riqueza do que com alguma ação para reverter o miserável quadro mundial. Mas trabalhamos todos os dias sonhando com o dia em que chegaremos perto deles. E o que faremos então? Certo é, que se hoje não fazemos nada com o nada que temos, se tivermos amanhã também não o faremos. E seremos mais um peso naquela balança.

Quando Jesus disse que os sedentos de justiça eram bem-aventurados, já que um dia seriam fartos, não imaginei duas coisas: que seria tão difícil ter essa sede ou achar alguém que a tenha; e que o dia da fartura estivesse tão longe!

Maranata... Maranata...

Sexta-feira, Outubro 24, 2008

Um problema legal

Uma erva daninha que há muito se fixou no nosso meio é o legalismo. Diria nas nossas igrejas, mas o legalismo está presente em tantos dos nossos ambientes e contextos, que prefiro generalizar. No caso das igrejas, porém, é onde o vejo com maior periculosidade.

O apóstolo Paulo alertou à Igreja de Colossos quanto a serem legalistas após receberem a Cristo:

“Já que vocês morreram com Cristo para os princípios elementares deste mundo, por que, como se ainda pertencessem a ele, vocês se submetem a regras: Não manuseie, não prove, não toque?”
Cl 2.20-21 – Nova Versão Internacional

O Salmista expõe uma forte repreensão contra um comportamento possivelmente legalista:

“Não sejam como o cavalo ou o burro, que não têm entendimento, mas precisam ser controlados com freios e rédeas, caso contrário não obedecem”
Sl 32.8-9 – Nova Versão Internacional

Ainda no Antigo Testamento, temos exemplos de pessoas que eram obedientes às Leis de Deus e não eram legalistas. Era o caso de Davi, que vendo a necessidade de seus homens, não hesitou em dar-lhes do pão da proposição (I Sm 21.1-6), não hesitou em dançar diante de todos para celebrar o Senhor, mesmo sendo o rei; e não era o caso de sua esposa, Mical, que achou inconveniente o rei se expor daquela forma perante o povo (2 Sm 6.1-14, 20-23). O caso do profeta Oséias, que se casou com uma prostituta, sob uma ordem de Deus, para mostrar ao povo como eles se relacionavam com o Senhor; o caso do profeta Ezequiel, que ousou declarar a visão que tivera do trono móvel de Deus, o que quebrava o dogma da presença exclusiva de Javé no templo (Ez 1). O próprio Senhor não é um Deus legalista.

Hoje, porém, muitos têm guiado sua fé e prática cristã dessa forma. Se recebem algo de Deus, é porque fizeram por merecer, e se passam por alguma dificuldade, é porque não se portaram como deveriam. Sempre caminhando pela lei da causa e do efeito, anulando a graça de Deus. Não se tem por “lei” que Deus nos aceita e abençoa sendo nós pecadores irremediáveis, pó, cinza, presos às corrupções deste mundo até à sua providência final. Muitos querem “conquistar as bênçãos e os milagres de Deus”. Nada disso se conquista. Cristo já conquistou para nós, e se dependermos de nossos méritos, jamais os teremos.

O legalismo é anti-cristão. Não é possível alguém ser legalista e estar de acordo com a Bíblia, pois foi “para a liberdade que Cristo nos chamou” (Gl 5.1). O legalismo traz culpa e torna-se o mal da religião, tão criticado por tantos filósofos, uma vez que jamais conseguiremos cumprir toda a Lei. O legalismo provoca a divisão, pois passamos a desprezar aquele que é “menos santo” ou que ainda não se entregou a Cristo, por acharmo-nos melhores do que esses.

Lembremo-nos de que quando pregamos para alguém “aceitar a Cristo”, estamos apelando para que ela aceite o sacrifício feito por Ele como suficiente para expiar os seus pecados, independente de suas obras (Ef 2.8-9) e de seus méritos. Por isso é difícil e duro aceitar a Cristo, pois, automaticamente, estamos dizendo que todos os nossos esforços para alcançar a Deus, que é plenamente santo, justo e bom, são vãos, e somente o sacrifício de Cristo nos basta.

Façamos jus à nossa fé, e busquemos a nossa santificação, cientes de que o mérito até de sermos santos é proveniente de seu sacrifício e do trabalho do Espírito que Ele nos deu.

Quinta-feira, Junho 19, 2008

Percipere

Há alguns anos atrás, decidi levar uma vida cristã séria. Não ser mais um que freqüenta uma missa ou culto nos finais de semana, mas levar uma vida exclusivamente cristã. Isso trazia muitas implicações, e eu tomei esta decisão conscientemente. Até então, via Deus como alguém distante, e passei a percebê-lo mais perto. Como alguém que tomava decisões a meu respeito e eu as seguia (ou não), e passei a ver seu respeito em relação às minhas decisões (considerações calvinistas a parte). Via Deus como alguém sempre chateado, pois nunca conseguia fazer o que ele queria; ficar sem pecar era impossível. Entendi que ele me aceita pecador como sou, e me chama à santificação ciente de minhas muitas falhas.

Comecei a minha devota caminhada cristã numa igreja evangélica, e passei a ver Deus nessa instituição: e errei feio. Não porque Deus não estava na instituição, mas porque ele não é a instituição. Dei à instituição um caráter mais sagrado do que lhe era devido. Não pensei que essa fosse apenas o ajuntamento de um bando de pecadores como eu. Via o líder como alguém mais santo, com uma característica um tanto o quanto mística em torno de si. Até que, depois de um bom tempo, convivi com alguns líderes, e vi que eles eram pessoas comuns, como eu. E depois, sendo ainda uma pessoa comum, o mesmo pecador arrependido e perdoado, imerecidamente aceito, me vi também como um líder. E estranho... Não me lembro de haver me tornado um super-homem.

Difícil foi essa percepção... Via Deus e a instituição como uma coisa só, e a situação ficou complicada quando tive que fazer essa separação. Deus é uma coisa, a instituição outra. Deus cuida dos membros da instituição, e essa é a respeito dele, mas são coisas distintas. E então, me vi num novo perigo: reconhecer um e outro, distingui-los, mas, no processo de separação, perder um deles. E como eu vivo na instituição, ela está sempre muito perto de mim e eu muito ativo nela, quem seria o maior candidato a perder o posto?

Então, começo o processo de resgate. Do resgate da essência, do resgate daquele que é a causa de tudo o quanto tenho vivido, mas que se perdeu no meio da minha vida. Precisei começar a resgatá-lo, pois a vida para ele confundiu-se com a vida nela – a instituição. Assim, passei a buscar o que estava perdido. Além de servir na igreja, quero servi-lo na igreja. Pois uma vez que me aproximo dele, percebo a importância da instituição, que é onde ele escolheu para estarmos e para ele nos edificar (At 20.32; Ef 4.11-16; 2 Tm 3.16,17; l Pe 2.1,2; 2 Pe 3.18).

A instituição tem suas muitas falhas, pois quem a faz é gente como eu. Entendo que se me frustro com a instituição, frustro-me comigo mesmo, pois sou eu quem a construo, de uma forma ou de outra. Então, junto a Deus, recomeço minha construção. Não há nada melhor do que servi-lo, e não há nada mais correto do que faze-lo junto àqueles que também o querem.

Graças a Deus.

P.S.: dedicado à Milene Castro, por jogar luz em tantas áreas ainda escuras para mim...